BUILDING BRANDS, CREATING NEWS

Uma marca chamada Brasil.

“Nós, brasileiros,

temos a chave

que o mundo

cegamente procura:

a Antropofagia.

” Oswald de Andrade, em maio de 1928

 

Para tentar responder à complexidade dessa questão, com toda a sutileza e simplicidade implícitas, faço uma pequena retrospectiva. Trabalho com construção de símbolos, sua relativa linguagem e inserção nos diferentes microambientes culturais, há três décadas. Nesse período, procurei desenvolver acuidade e educação visual, avesso à representação lógico/linear que herdamos de nossa colonização européia, sempre uma consequência do repertório e da bagagem acumulada de cada um de nós. Temos à nossa disposição uma multiplicidade de conceitos e interpretações e procuramos ser coerentes na diversidade.

Não temos cultura herdada, temos cultura criada. Antropofagia e sincretismo é o que nos une.

 

Somos singulares dentro do plural.

Somos múltiplos na monotonia.

Somos cordiais, mas não complacentes.

Somos um acidente geográfico.

 

Nasci na região do pampa gaúcho, reto, linear, com horizonte infinito. Até a minha adolescência, pensava que o mundo fosse plano - meridiano e medieval. Fui estudar na capital e me surpreendi com as ladeiras da cidade grande. Participei de uma banda de Rock, de passeatas estudantis e estudei Ciências Sociais. Com especialização em Antropologia, fui trabalhar em aldeias indígenas no Amazonas, índios Tukano, e depois no Maranhão, índios Gavião. Retornei para o sul, estudei Arquitetura, desenhei livros e revistas e comecei a desenvolver projetos de identidade visual. Então me tornei designer.

 

Fui cristão, budista e pagão.

Fui muçulmano, hebreu e filisteu.

Fui árabe e espanhol.

Português, italiano, índio e alemão.

Cafuso, mulato e mameluco.

E agora sou brasileiro.

 

Apesar da nossa dimensão continental, da mistura de raças, de pessoas vivendo numa sociedade pari passu às mais desenvolvidas tecnologicamente e, ao mesmo tempo, de populações em estado primitivo, nos fazem acreditar que habitamos o contraste. Também somos abertos e incorporamos as mais diversas manifestações culturais, sem que isso represente uma ameaça. Pelo contrário, este fator é uma de nossas fortalezas. Temos unidade, somos uma república federativa com um poder central e com uma única língua, elementos fundamentais que nos estruturam. Temos uma cultura imaterial extremamente rica e diversa.Para nós, “a vida é centrada no relacionamento social, no vínculo, na ligação entre as pessoas ou entre estas e o meio ambiente” (Publicado na pesquisa desenvolvida pelo Sebrae - Cara Brasileira, a brasilidade nos negócios, 2002). Tudo aquilo que conduz ao encontro e ao relacionamento nos leva, por extensão, à brasilidade.

 

Compartilhamos a exuberância da cor, a jinga, um espírito natural e um senso estético único.

 

Fomos sábios, marinheiros, guerreiros e dragões.

Fomos vagabundos, enforcados e ladrões.

Aprendemos a ser ferreiros, marceneiros, sapateiros e artesões.

Hoje somos desejo e emoção.

 

Aloísio Magalhães, um dos maiores designers e gestores da educação semântica, escreveu certa vez que a cultura é como um aluvião. O aluvião é a camada de sedimentos férteis acumulada ao longo do leito dos rios, através de sucessivas cheias e vazantes, e que fazem com que a terra seja ricamente produtiva, ao longo dos quais as grandes civilizações se desenvolveram e floresceram. Assim é o Brasil - assim deve ser a Marca Brasil. Um aluvião de misturas, de camadas sobrepostas, que vão dando forma e conformidade às sucessivas cheias para construir a riqueza do repertório. Aliás, nosso maior patrimônio é a nossa cultura imaterial, oral e visual, que devemos e precisamos documentar. seja simbólica, seja metafórica, seja real, seja virtual.

 

Somos efêmeros e voláteis. 

Somos autoconfiantes, mas precisamos de autoestima.

Desprezamos a técnica.

Somos Macunaíma.

 

Vivemos com agilidade e conseguimos nos transformar rapidamente. Ao mesmo tempo temos um leve desprezo pela base da nossa formação. Fazemos com que o público se torne privado e transformamos o privado em público. Temos língua, linguagem, tipo e identidade.

 

Diversidade de identidades e tipos gráficos, utilizados como referência para um projeto de marca brasileira.

 

Esta diversidade e a fragmentação cultural fizeram com que eu construisse uma trajetória no campo do design como um aluvião. As diversas camadas e os diversos segmentos para os quais trabalhei - energia, telefonia móvel, siderurgia, varejo, esporte, serviços e outros, sedimentaram em mim um conceito claro e um princípio organizador da nossa questão preliminar e foco dessa análise. Identificamos territórios, mapeamos símbolos e índices, definimos cores com paletas primárias e secundárias, linguagem, tipografias e grafismos de apoio. Tudo para construir marcas e definir territórios. Tudo para relacionar com nossos ambientes. Tudo para sincretizar.

 

Claro Digital, direção de criação, implantação e gestão de marca. (1997 a 2000) Claro, direção de criação, implantação e gestão de marca. (2003 a 2007) Oi, implantação e gestão de marca. (2001 a 2002).

 

Uma diversidade fragmentada.

Extrato de uma percepção contraditória.

Representamos um espírito rejuvenescedor.

Somos atores de uma Marca chamada BRASIL.